Páscoa, Mateus 25 e a Estética da Exclusão:
Onde está o Cristo no "Programa Contra a Esmola"?
Nesta
véspera de Páscoa, enquanto muitos celebram a ressurreição e a renovação da
esperança, um debate incômodo surge em nossa região. De um lado, temos o texto
sagrado que fundamenta a fé cristã; do outro, a proposta de um "programa
para mostrar que esmola não resolve", defendida por lideranças religiosas
locais. O contraste não poderia ser mais violento.
1. O Imperativo de
Mateus 25:35-40
As
palavras de Jesus no Evangelho de Mateus são o "padrão ouro" da ética
cristã. Ele não condiciona o auxílio à eficiência administrativa ou ao mérito
do necessitado. Ele diz, de forma seca e direta:
"Pois
eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber;
fui estrangeiro, e vocês me acolheram [...] Sempre que o fizeram a um destes
meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizeram."
Para
Mateus, o encontro com o vulnerável é o encontro com o próprio Sagrado. Não há
"triagem", não há "aplicativo de controle" e não há a
desculpa de que "ajudar na rua atrapalha o sistema". Existe apenas a
urgência do faminto.
2. A Proposta do
"Pastor": Higienismo travestido de Gestão
Ao
analisarmos a proposta do Pastor Marcelo de criar um programa para desestimular
a esmola direta, percebemos uma tentativa de burocratizar a compaixão. O argumento comum é de que
a esmola "vicia" ou "mantém a pessoa na rua".
No
entanto, sob o verniz de "organização assistencial", o que se busca
muitas vezes é uma limpeza estética
das áreas comerciais. Quer-se o conforto de não ser interrompido por um pedido
de ajuda enquanto se consome. É a substituição da caridade (o amor em ação)
pela filantropia de gabinete, que só ajuda se o indivíduo se enquadrar nas
regras de um sistema que, muitas vezes, é o mesmo que o excluiu.
3. A Incoerência
Ética: Onde está a Solidariedade?
Como
estudioso da Economia Solidária,
entendo que a esmola realmente não é a solução estrutural para a pobreza. A
solução passa por políticas públicas, emprego e renda. Contudo, usar a
estrutura religiosa para dizer que o cidadão não deve estender a mão a quem tem
fome hoje é uma contradição teológica profunda.
ü Mateus
25 convida à proximidade.
ü O
"Programa do Pastor"
convida à distância.
Trata-se
do mecanismo de opacidade que já discutimos em outros artigos: quer-se delegar
a "ajuda" a uma instituição para que o corpo do pobre desapareça da
nossa vista. É a "terceirização do amor ao próximo".
4. Páscoa:
Ressurreição ou Sepulcro Caiado?
Celebrar
a Páscoa apoiando projetos que estigmatizam quem pede ajuda nas ruas é o que a
própria Bíblia chama de "sepulcro caiado": bonito por fora, mas vazio
de vida por dentro. Se a igreja se torna o braço que aponta o dedo em vez da
mão que sustenta, ela perde sua função messiânica e torna-se apenas um clube de
interesses sociais.
Neste
domingo de Páscoa, a pergunta que fica para os fiéis e para os gestores
públicos é: se Cristo estivesse hoje sentado em uma calçada da nossa cidade,
com fome e sede, o "programa do pastor" permitiria que você o
alimentasse, ou você teria que esperar a abertura de um processo administrativo
para exercer sua fé?
5. Concluindo: Cristo ou Marketagem?
"Em
uma região que se orgulha de seus valores cristãos, é preciso decidir se
seguiremos o Cristo de Mateus 25 ou o marketing da exclusão que tenta limpar as
ruas sob o pretexto de 'ajudar melhor'."









